Quando se fala em plano de carreira, é comum associar esse processo ao programa organizacional no qual são definidas as competências, o tempo de função e o desempenho que o colaborador deve alcançar para crescer na hierarquia corporativa. No entanto, você sabia que esse modelo de plano de carreira está sendo cada vez mais abandonado pelas organizações?

Na edição da Pesquisa dos Profissionais Brasileiros, realizada pela Catho, foi apontado que cerca de 70% das empresas brasileiras não oferecem plano de carreira aos funcionários. Isso se dá por motivos diferentes, entre eles a falta de planejamento e de estratégia empresarial, ou pelo fato de esse modelo “estático” e pré-concebido de plano de carreira já ser considerado obsoleto. E, para você que investe na sua formação e tem grandes expectativas profissionais, esta última razão merece destaque. Acompanhe.

Plano de carreira: a atualização do conceito

A mudança no modelo de plano de carreira se deve, principalmente, por dois motivos: a transformação das ambições profissionais e a alta competitividade do mercado. Vamos por partes.

Os novos perfis profissionais

Se você perguntar a seus pais qual era a visão de sucesso quando eles começaram a caminhada profissional, a maioria falará que o grande sonho era conquistar um emprego estável, em uma empresa sólida, e alcançar um alto cargo dentro da estrutura organizacional.

O fato é que isso mudou. Atualmente, outros aspectos são valorizados pelas pessoas além de uma boa remuneração, como a qualidade de vida e a vontade de fazer parte de algo grandioso – não somente compor a engrenagem de um sistema ou se afundar em serviços burocráticos.

Além disso, o número de profissões cresceu consideravelmente, e o desenvolvimento tecnológico (principalmente a Internet) propiciou oportunidades de trabalho nunca antes imaginadas. É claro que as ambições profissionais e pessoais mudariam, não é mesmo?

Para completar, o acesso à graduação e aos cursos de extensão cresceu exponencialmente. Isso trouxe confiança ao jovem profissional que, ao ingressar em uma empresa, já busca a condição ideal de trabalho e não tem medo de se arriscar em mudanças de emprego até encontrá-la. A consequência disso tem sido a alta rotatividade nos cargos iniciais.

De acordo com um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA), sete em cada dez pessoas entre 15 e 24 anos saem do emprego antes de completar um ano na empresa. Frente a essa volatilidade, é compreensível que, cada vez menos, as empresas invistam em planos de carreira de médio e longo prazos para o jovem profissional.

A realidade no mercado de trabalho

Não é só a mudança do perfil profissional que provocou uma evolução no conceito de plano de carreira. As organizações vêm mudando a forma de avaliar seus colaboradores e de qualificá-los para crescer na hierarquia interna. A meritocracia ganha fundamental importância: a promessa de crescimento àquela pessoa com mais tempo de função, por exemplo, perde espaço. As empresas valorizam os profissionais que apresentam os melhores resultados da forma mais produtiva. Esses, sim, têm as maiores chances de um lugar ao sol.

Isso não quer dizer que as organizações abandonaram o plano de carreira empresarial. Na verdade, os critérios é que estão mais cuidadosos. Os cargos iniciais têm, de fato, um plano de curto prazo, que pode ser atualizado a cada seis meses, por exemplo.

Já os cargos de liderança continuam estratégicos e planejados em médio e longo prazos. São neles que as empresas investem com força, oferecendo os melhores cursos, treinamentos e oportunidades. Ou seja, você precisa criar as condições para alcançar esse espaço: construir os próprios degraus, pois a escada já não é mais entregue pronta.

Plano de carreira - é preciso construir cada degrau
Plano de carreira: o mercado exige que você construa cada degrau do seu crescimento. A ideia de modelo de plano de carreira pronto está obsoleta.

O que é um plano de carreira eficaz?

Considerando essa evolução no mercado de trabalho, o modelo de plano de carreira ideal é aquele individualizado, que leve em conta suas ambições profissionais e pessoais, suas atuais competências e aquelas em potencial, além do pleno conhecimento do contexto em que você está inserido e como tirar proveito dele.

Tenha em mente que, por mais capacitado que você se sinta e por mais recheado que seu currículo seja, você não vai crescer rapidamente. Antes, é preciso conquistar a confiança de seus gestores por meio de boas soluções, comportamento proativo e colaborativo, visão estratégica e, claro, excelentes resultados em tempo e custo otimizados. Sua relevância para empresa é provada com ações. Lembra da meritocracia?

Afinal, como conquistar isso? Não existe fórmula mágica pronta: o planejamento de sua carreira deve ser feito com base em análises circunstanciais e de seus objetivos de curto, médio e longo prazos. Para começar esse planejamento de forma certeira, adote esses 7 passos:

1. Pratique o autoconhecimento

Um dos pilares para o sucesso do plano de carreira é o autoconhecimento. Por isso, antes de tudo, é preciso refletir. Você é capaz de responder às seguintes perguntas com convicção?

  • Os conceitos de realização e sucesso profissional que você carrega são seus ou expectativas de outras pessoas? Quais são eles?
  • O que é ter qualidade de vida e quais as suas prioridades?
  • Qual é o seu perfil profissional: gestor, especialista ou relacional?
  • Você se enxerga nesta profissão por toda a vida?
  • Quem são seus ídolos e mentores?
  • Como você se vê em 3, 7 e 15 anos?
  • O que mais te motiva no trabalho e o que mais te frustra?
  • Se você não tivesse qualquer medo de fracasso, quais riscos assumiria?

Dedique-se a esse processo, pois ele trará respostas valiosas para você avaliar suas escolhas. Uma excelente alternativa é desenvolver esse trabalho com o auxílio de um coach. Aliás, esse profissional será muito útil, também, em todos os passos seguintes.

Plano de carreira - trabalhe com um coach
Plano de carreira: a ajuda de um coach pode ser determinante para traçar um planejamento de carreira adequado ao seu perfil e aos seus objetivos.

2. Faça uma autoavaliação

Se você já sabe onde quer chegar, ponto para você. Agora, é necessário criar as condições para isso. A melhor maneira de começar é avaliar suas atuais competências e as habilidades que precisará desenvolver. Nesse momento, conte com o feedback de colegas, de seu superior e com as avaliações de desempenho (quando existirem).

Por exemplo, se você é um analista e gostaria de assumir, em três anos, o cargo de coordenador, é indispensável saber todas as funções desempenhadas por ele, os pré-requisitos para o cargo e ir além: como otimizar o trabalho? Como trazer maiores benefícios para a empresa?

Além disso, esse perfil de atuação é compatível com o seu conceito de satisfação? Você se sentirá motivado em desempenhar a função? Tenha as respostas claras. Somente dessa forma, você terá conhecimento dos cursos, dos treinamentos, do networking, das conversas com mentores e de outros auxílios que precisará.

3. Defina metas

Um bom planejamento deve contar com metas de curto, médio e longo prazos. Isso é fundamental para você mensurar e valorizar suas conquistas, além de corrigir o curso sempre que necessário. Periodicamente, avalie se o plano está adequado à realidade, uma vez que se trata de um caminho quase nunca linear. É preciso superar obstáculos e ser resiliente.

Uma dica interessante para aplicar no dia a dia é organizar sua agenda de trabalho usando a metodologia do 70-20-10:

  • 70% do tempo deve ser dedicado às tarefas obrigatórias de sua função;
  • 20% do tempo para troca de informações com a equipe ou gestores a fim de melhorar o desempenho e a qualidade de suas ações;
  • 10% do tempo para refletir e conversar com a equipe e gestores sobre como melhorar a performance da empresa.

Nunca se esqueça, também, de se preparar para os momentos de crise, como a perda do emprego, a necessidade de investimentos e cursos ou emergências em geral. Cuide bem do seu dinheiro.

4. Alinhe seu plano ao da empresa

Esse passo é indispensável se você admira a organização em que trabalha e almeja um futuro ali. Entender os objetivos da empresa, o segmento e o contexto de mercado em que está inserida e os grandes desafios a superar trarão o conhecimento para descobrir onde estão as oportunidades de crescimento (cargos e funções) e os pontos fracos que precisam de apoio.

Plano de carreira - reflita, planeje e aja
Um plano de carreira bem-elaborado é aquele que compatibiliza os interesses do profissional com os objetivos da empresa.

 

Para as organizações, atender às demandas com os próprios funcionários é muito mais produtivo. Afinal, o colaborador já tem incorporado o espírito, os processos internos e não é preciso investir em processos seletivos e treinamentos. 

5. Seja um especialista, não somente um multitarefas

Ser capaz de desempenhar várias funções não é demérito algum, muito pelo contrário, as empresas valorizam profissionais multitask, uma vez que os quadros de funcionários estão cada vez mais enxutos. Aliás, em momentos de crise, esses profissionais são muito requisitados para “apagar incêndios”.

No entanto, se você quer ser reconhecido e se destacar, é preciso ser diferenciado em algo. Um ótimo exemplo para provar esse argumento é pensar naquele jogador de futebol “coringa”, que assume diferentes posições quando o técnico precisa. Já reparou que ele, raramente, é o titular das posições que supre, pois sempre existe alguém melhor? Não seja o “quebra-galho”. Seja o craque do time.

6. Amplie sua formação

Se o objetivo é se destacar, você precisa ser capaz de desempenhar mais do que é esperado, concorda?

O consultor em gestão de pessoas Amir El-Kouba, professor da Fundação Getúlio Vargas e da Faculdade IBS, reforça que o profissional do futuro deve ampliar sua estratégia de atuação no mercado, investindo em cursos e em capacitação em áreas complementares.

Por exemplo, se você é um profissional da saúde em uma clínica ou hospital, que tal se especializar em gestão empresarial? Dessa maneira, você vai criando diferenciais em seu currículo.

7. Invista em experiência

As organizações valorizam os perfis altamente qualificados, mas isso não basta. A experiência é um fator determinante na hierarquia corporativa e pesa no plano de carreira empresarial. O especialista em carreiras Max Gehringer é categórico ao afirmar que “não se substitui um quilo de experiência por uma tonelada de currículo”. Por isso, a dica dele para jovens profissionais é que estudem muito, mas não abandonem a prática.

Com esse foco, busque sempre oportunidades de colocar em prática cursos e treinamentos que fizer. Identificou deficiências em algum processo da empresa? Consegue implementar alguma solução aprendida? Vá em frente! Sua proatividade fará toda a diferença nessa hora. Converse com gestores e mentores, veja a qual deles pode oferecer ajuda e, quem sabe, assumir parcialmente a responsabilidade por alguma tarefa.

A importância do plano de carreira está, principalmente, na necessidade de se adequar às necessidades do mercado, extremamente dinâmico e competitivo, que não se apoia mais em organogramas estáticos e planejamento de crescimento pré-definido e, sim, em quem “entrega mais com menos”. Por isso, prefira um plano de carreira personalizado, desenvolva cada vez mais suas potencialidades e alcance, degrau por degrau, o sucesso sonhado.

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